quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Casaco vinho

By Rute Sobrinho :)


Fernando recebera da mãe muitas recomendações para não descuidar da irmãzinha Joana, a quem deveria encaminhar até a casa da avó para um passeio. O irmão, que a amava mais que tudo, recebeu o encargo com grande alegria, passeando com ela de mãos dadas pelas ruas, orgulhoso.

Ficaram toda a tarde na casa da avó. Comeram pipoca, cachorro quente e suco. A avó deu de presente para Joana um casaquinho de lã vinho. Ela amou o mimo. Fazia um calor enorme e ela não queria mais tirá-lo do corpo.

Na hora de irem embora, a avó mandou uns doces em um recipiente e colocou o casaco no braço do rapaz. Agradeceram a tarde maravilhosa e foram embora.

No caminho, Fernando lembrou-se que deveria pegar um livro com um amigo para terminar um exercício de matemática naquela noite. Ele prometeu a Joana que não demoraria, mas a mãe não poderia saber disso, já que as recomendações dela eram para que fossem e voltassem da casa da avó sem desviarem o caminho. 

Chegando lá conversaram e assistiram à televisão enquanto o colega procurava o livro. Como não é incomum entre os jovens, esqueceram-se da hora e saíram às pressas para que a mãe não brigasse.

Quando retornaram a casa já era noite. A mãe os esperava no portão com olhares nada amistosos. Depois de uma bronca bem merecida, a mãe lhes preparou uma sopa quente.

De repente Joana gritou! Todos olharam assustados. A menina começou a chorar. Que tragédia: havia perdido o casaco! Ela tinha gostado tanto dele que não acreditava como o perdera e só notara-lhe a falta naquele momento.

O irmão consternado sentiu-se culpado, afinal o desvio do caminho e a pressa com que foram embora devem ter contribuído para o incidente. Fernando, Joana e a mãe refizeram o caminho até a casa da avó, mas nenhum dos dois falou nada sobre não terem voltado direto para casa.

Olharam o chão cuidadosamente e não encontraram nada. O irmão estava muito triste porque sabia que a irmã tinha ficado muito feliz com o presente. Ela, por sua vez, engoliu o choro e o desgosto, e não mencionou nada para mãe sobre o ocorrido.

A partir daquela noite tinham um segredo. Tornaram-se mais amigos e cúmplices do que nunca. Tomaram a sopa na mesma cumbuca.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Educação Preferencial

By Rute Sobrinho J
 
É incrível a capacidade e o prazer que o ser humano tem em burlar as regras, fazer o proibido, lesar sem ser pego, levar a melhor.

Embora este texto possa ser polêmico, não posso deixar de expressar minha opinião que está inchada no meu estômago até agora.

Nos últimos dias vimos muitas manifestações populares lindas, diga-se de passagem. Mas em meio a tudo isso, ouvimos vozes que ponderaram a respeito de uma politização e educação mais amplas. O povo que não sabe os seus direitos e deveres e não os cumpre, não tem capacidade “moral” para exigir dos políticos eleitos uma atitude melhor do que a que teriam.

Estou divagando sobre o tema antes de contar um fato que presenciei esta semana e achei um absurdo. Confesso que me senti impotente e covarde, pois deveria ter feito alguma coisa e não fiz, apenas murmurei palavras indizíveis. De tão assustada que fiquei, pensei que pudesse ser aquele quadro do fantástico em que situações constrangedoras são apresentadas em lugares públicos, com atores contratados, para ver como as pessoas reagem. Confesso que procurei a câmara escondida e o repórter. Mas não havia, era real.

Tudo aconteceu no metrô. Naquele dia, excepcionalmente, não fui trabalhar de carro. Entrei e fiquei em pé, todos os assentos já estavam ocupados. Era por volta de nove horas da noite e o cansaço tomava de conta, cada qual encostava onde podia ou conseguia.

No meio do percurso, aproximadamente depois de cinco estações, entrou um jovem senhor dos seus quarenta anos, que segurava uma bengala e mancava de uma perna. Ele olhou em volta, procurou um lugar para sentar e não encontrou. Então se dirigiu a duas moças que estavam sentadas nos assentos preferenciais, cuja placa de aviso era enorme, e estas fingiram dormir. Ele não desistiu e cutucou uma delas algumas vezes até que ela olhou para ele:

- Gostaria de sentar neste assento preferencial. – ele disse.

As duas se entreolharam e, “caradepaumente”, disseram:

- Não existem somente estes assentos preferenciais, peça para outra pessoa sair, olha ali em frente! 

E o jovem foi mancando pedir para outra pessoa, que observando a situação retratada, levantou-se e cedeu o lugar antes de um pedido expresso.

Fiquei sinceramente atordoada com aquela situação. Além de estarem sentadas em assentos preferenciais, não se retiraram nem mesmo com o pedido expresso de um deficiente físico.

Desculpem-me, mas os políticos saem da nossa sociedade com os defeitos inerentes a ela, então queiram ou não eles são um reflexo nosso também. Mesmo nas manifestações justas, havia pessoas totalmente despreparadas para pedir algo, só faziam o que sabiam: badernar, atrapalhar, e mostrar quão distante ainda estamos de um país civilizado.

Claro que cada qual, inclusive os políticos, deve assumir sua culpa e ressarcir a sociedade. Não queremos aliviar o de ninguém, mas nós também escolhemos errado. Eles fazem com o mandato o que fariam em outro lugar, tentando fraudar, enganar, passar por cima dos outros, desrespeitar decisões. A diferença é que as oportunidades para eles são maiores, mas o fundamento é o mesmo do fato que lhes contei: falta de educação moral.

sábado, 8 de junho de 2013

Vida de pombo

Texto de Rute Rodrigues Sobrinho

Outro dia no percurso da minha caminhada vi vários pombos ciscando no local aonde mais tarde chegariam carros trazendo marmitas para os transeuntes ferente com aqueles animais, eles mal conseguiam andar, estavam muito gordos, pareciam que tinham aprendido a andar com os patos. 

Observei que o atual habitat deles era ao redor de barracas de comida, aonde o alimento vinha fácil e o dia inteiro, sem interrupção. 

A maioria deles não voava mais, eram quase do tamanho de uma galinha (com exagero e tudo).

Além de não deixar de pensar no monte de doenças que eles poderiam transmitir, pensei também como a natureza é sábia. Ela nos oferece exatamente aquilo que podemos digerir, seja física ou emocionalmente. 

Quando vezes nos deparamos com algumas perguntas ou lamentações que nos fazemos internamente? - Por que não consigo alcançar os meus objetivos rapidamente? Por que fulano, que é mais novo do que eu já conseguiu aquela promoção e eu ainda não? Se eu tivesse alguém para me dar um empurrãozinho... Queria ter um padrinho como cicrano e logo estaria ganhando mais...

Não creio que a vida seja tão desorganizada assim. Ela segue um fluxo, uma lógica. Os coitados dos pombos estavam daquele jeito porque o caminho natural deles seria gastar energia, procurar comida, voar um pouco, ver a natureza de outra forma. Essa nova perspectiva trouxe a eles prejuízos, engordaram muito, andavam devagar, não conseguiam se defender dos predadores. Mas para eles apenas o instinto de sobrevivência era importante.

Mas nós humanos estamos além dos instintos, já somos animais racionais, podemos fazer escolhas e escolhas inteligentes. 

Outro dia ouvi uma entrevista na televisão com um delegado que falava sobre crimes cometidos por estelionatários. A primeira dica que ele deu para se reconhecer um golpe foi: desconfie de tudo que vem fácil e sem esforço; provavelmente há algo errado e ilegal. 

Nada vem de graça e sem esforço. A vida não é uma bagunça, embora por instantes, ou mesmo anos, pareça ser.

Não faz parte da lógica conseguir atingir metas sem esforço, disciplina e perseverança. Quando alguém consegue algo assim, de mão beijada, na verdade está tendo um enorme prejuízo a longo prazo. Estamos com a comida na mão, mas não conseguimos nos defender corretamente, porque isso se aprende com o tempo; não fazemos escolhas inteligentes por falta de maturidade emocional; andamos devagar e em círculos; e, o pior de tudo, não conseguimos voar. 

Ainda sob outro ângulo podemos pensar que essa comida fácil obtida diariamente pode ser aquilo que seguimos sem questionar, é a mentalidade fast food. Todo mundo acredita, então deve ser verdade, se todo mundo fala mal também falamos, se fala bem seguimos novamente. Quem discorda é visto, muitas vezes, com maus olhos. Não questionamos. Seguimos. Parece mais fácil. Mas infelizmente com essa atitude deixamos de gastar muita energia, de nos tornarmos mais leves, de criarmos nosso próprio caminho, de voarmos muito alto... 

domingo, 19 de maio de 2013

A mochila de Alice

         Alice tinha por volta de doze anos quando começou sentir certos sintomas: cansaço, dor de cabeça, tristezas infundadas e alegrias inexplicáveis. Só que tudo isso ao mesmo tempo.


Curiosa toda vida, sempre perguntava o porquê de tudo. As pessoas respondiam quando tinham paciência. Outras vezes diziam que era assim e pronto.

Quando a vida religiosa entrou em sua vida de uma forma mais contundente os seus problemas começaram de verdade, porque as respostas para os seus questionamentos não eram satisfatórias. Quando muito, diziam que as coisas aconteciam daquela forma porque Deus queria assim. Ela não se convencia das explicações e ficava mal perante os outros e triste com ela, parecia que não tinha fé, o que não era verdade.

Na idade adulta ficou muito doente e ninguém conseguia tratá-la. Foi então que disseram que havia um médico das coisas invisíveis, uma especialidade rara que estava desaparecendo no mundo, porque as pessoas só criam no poder dos remédios. Esse velhinho ainda atendia, raramente, os casos excepcionais enviados a ele.

Ao entrar no consultório, o médico assustou-se ao vê-la entrar na sala com uma mochila cem vezes maior do que ela e pensou: 

- Como essa menina franzina consegue carregar um peso desses? 

Imediatamente fez sinal para que uma enfermeira viesse ao encontro de Alice para levar a mochila por uns instantes. Ela sentiu um alívio, estava bem melhor. Sem a pesada bagagem a consulta poderia transcorrer normalmente. 

Foi aí que ela obteve o maior conhecimento que poderia alcançar. A explicação do médico mudou sua vida para sempre. Ele disse que todas as pessoas nascem com a mochila das dúvidas e insatisfações. Alguns não notam a diferença, porque não questionam nada no mundo, nada faz diferença para eles. Outros preferem saber apenas o necessário, ficando na superficialidade. Mas Alice era uma das pessoas que queriam entender tudo, e como não obtinha respostas satisfatórias, jogava as dúvidas na mochila e ela ia pesando cada vez mais. 

Por conta disso, vários problemas poderiam aparecer como dor de cabeça crônica, dor na coluna, dor nas articulações, insuficiência respiratória e tristeza sem fim. 

Então a menina perguntou ao médico: 

- Como posso resolver meu problema? 

Ele olhou para ela profundamente e disse: 

- Depende do que você quer para sua vida. Se preferir ir contra sua natureza e personalidade, tente esquecer os questionamentos e viver uma vida com o mínimo de saber e aos poucos a mochila irá se esvaziar das dúvidas. O conhecimento, explicou ele, não pesa nunca, não faz volume, quanto mais, melhor. As dúvidas, ao contrário, são difíceis de levar e trazem doenças para o corpo e a alma. 

Alice olhou para o médico e pediu ajuda seriamente. Queria continuar com sua mochila de dúvidas, mas também queria um jeito de fazer isso ser menos sofrido. Afinal, certo peso na mochila dava a ela equilíbrio necessário para passar por caminhos estreitos, pontes perigosas e outros lugares que ela sonhava percorrer um dia. 

O médico receitou, por fim: 

- Uma dúvida por vez, uma dose equilibrada de questionamentos por dia. Saiba que isso nunca terá fim, porque o que se busca não é apenas o conhecimento, mas o exercício mental em si mesmo. Mas não se esqueça de adicionar coisas leves ao seu dia, coisas banais, descompromissadas, engraçadas, alegres. A mistura de tudo isso é que será o seu bem viver!

De posse dessas preciosas informações, Alice saiu com sua imensa mochila, que agora parecia um pouco mais leve, a trilhar pelos caminhos da vida. 

:) Texto de Rute Rodrigues Sobrinho

domingo, 12 de maio de 2013

Sonhos

Texto de Rute Rodrigues Sobrinho


Quando eu era criança sabia voar. Era um vôo sem asas, sem vento para atrapalhar. Era um movimento gostoso, tão sutil que não havia frio na barriga. Eu sobrevoava uns bosques, porque não chegava a ser uma floresta, e via tudo lá de cima.

Quando acordava contava que passei a noite voando igual aos pássaros, mas melhor ainda que eles, porque eu voava sem ter asas. Fui crescendo e vendo que as pessoas não podiam voar, só os pássaros e, além do mais, eu não tinha asas...

Quando comecei a questionar os meus sonhos, que deveriam ser inquestionáveis, passei a voar mais baixo, a poucos metros do chão. E o pouso era desagradável, como se eu estivesse fazendo algo errado que não era pra mim, mas que deu certo aquela vez. Eu estava cada vez mais grudada no chão.

O tempo foi passando e os meus sonhos mudaram, passei a levantar pouco do chão, sentia medo e logo voltava a colocar os pezinhos na terra. Aquela sensação boa quase não existia mais, porque eu tinha medo de cair e estava conhecendo a realidade do mundo.

Anos mais tarde continuei a sonhar com meus vôos, mas eu sempre caía num buraco sem fim, acordava com o coração batendo muito forte, quase saindo pela boca. Se eu soubesse voar ou acreditasse que podia voar certamente esses sonhos não me incomodariam. 

Achamos que somos livres na maioridade ou quando temos independência econômica. Na verdade nascemos livres e somos aprisionados aos poucos quase sem perceber.

Começamos a vida sem preconceitos, com todas as possibilidades pela frente. Mas aí crescemos e acreditamos no que os adultos dizem. Coitados, eles apenas propagam a decepção que também tiveram um dia...

Vamos assimilando esses conhecimentos, nossos sonhos vão diminuindo, nossos vôos ficando mais rasos, até o dia que em andamos apenas com nossos pés. 

Mas sonho é sempre sonho, tudo é possível. Podemos ter duas cabeças, voar com três asas, ter rodas nos pés e andar igual carro, ter qualquer profissão, fazer tudo o que quisermos. 

A nossa verdadeira maioridade é inadmitir que alguém zombe dos nossos sonhos, que nos convençam que algo não é possível, que nos tirem o gostinho de vôos altos e maravilhosos. 

quarta-feira, 1 de maio de 2013

De médico e louco...

Texto de Rute Rodrigues Sobrinho

Já ouviram falar no ditado “de médico e louco todo mundo tempo um pouco”? Pois é, outro dia estava organizando minhas coisas e alguém me falou com ares psiquiátricos: - Nossa você tem T.O.C! Nem me expliquei, apenas sorri por dentro. 

Na verdade a saúde e a doença, a sanidade e a loucura estão ligadas por liames muito tênues. Todos nós temos colesterol, glicose, mas os exageros alimentares nos fazem elevar essas taxas e provocar doenças como infartos e diabetes. Isso quando falamos de saúde física. Imagine o cuidado que não devemos ter com relação à nossa saúde moral e espiritual. 

Todas as nossas ações, quando feitas comedidamente são benéficas e saudáveis, tudo que passa pelo exagero traz doença e/ou loucura. 

O amor em excesso traz sentimento de posse, de obsessão, pode levar a crimes passionais. Na medida certa, é a mola propulsora do mundo, o sentimento que une povos, que desfaz intrigas, que perdoa. 

A prudência nos faz estudar a circunstância e tirar o melhor proveito na hora adequada. No entanto, a prudência em excesso é uma das vestimentas da covardia, é uma omissão dos nossos próprios desejos. 

A temperança nos proporciona o equilíbrio no uso dos bens e no relacionamento com os outros. O excesso é gula, luxúria, avareza, sentimento de posse. 

A generosidade é uma virtude linda, mas quando anda junto com o amor próprio e o bom senso. Fora disso, a pessoa pode ser apenas um gastador, um pródigo que não calcula o quanto gasta, que não sabe seu próprio valor. 

Até mesmo os sentimentos tidos como feios e baixos tem o porquê da existência e nos são muito úteis quando usados com moderação. Já ouviram falar que a diferença entre o remédio e o veneno é a dose? 

O orgulho próprio nos faz perceber quando não somos queridos, nos obriga a bater em retirada em certos casos, nos ajuda a estudar quem realmente somos e não quem achamos que somos. O orgulho exagerado, por sua vez, embota-nos a vista, deixa-nos sem a prudência necessária para decidir. 

Assim são as funções físicas do nosso corpo e os sentimentos e virtudes que conhecemos. A mesa está posta, podemos pegar o que quisermos e em qualquer quantidade. Não podemos nos esquecer, no entanto, que obedecendo a vida o princípio da ação e reação, as conseqüências das nossas escolhas sempre vêm. 

Acho que só devemos exagerar mesmo ao tentarmos ser muito felizes.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

A Thousand Years - Christina Perri

Eu morri todos os dias esperando você
Amor, não tenha medo
Eu te amei por mil anos
Eu te amarei por mais mil


sábado, 15 de dezembro de 2012

A tristeza do Natal

Texto de Rute Rodrigues Sobrinho

      Não sei se vocês já perceberam, mas nesta época do ano muitas pessoas sentem tristeza ou dizem que não gostam do Natal. E é difícil conceber que numa data tão especial, em que se comemora o nascimento do menino Jesus, pessoas estejam pensativas e cabisbaixas... 

       A felicidade por si só, sem que haja um entendimento dos objetivos de vida, das conseqüências dos enlaces e entraves diários, é inconsequente e infantil. 

    Por que então ficamos tristes nesta data? Se pensarmos bem, não temos como ficar totalmente felizes quando imaginamos que 33 anos após o nascimento de Jesus ele foi injustamente crucificado e morto. E mais, que até hoje vemos pessoas nas ruas apanhando, passando fome, morando debaixo das pontes, sofrendo injustiças. 

       Será que essa “tristeza” do Natal não seria uma espécie de alerta divino? Mostrando que para termos a felicidade completa o nosso irmão tem que possuí-la também? 

         Não é à toa que várias ações de solidariedade são colocadas em prática nesta época para amenizar a dor do nosso companheiro de jornada. E se dizemos que esse ou aquele não merece, estamos descumprindo um dos fundamentos do cristianismo que é amar incondicionalmente. Cada um colhe o que plantou, mas podemos amenizar sofrimentos com nossa caridade. 

         Dessa forma desejo que haja um pouco de tristeza no coração de cada um neste Natal, para que não se esqueçam, agora e durante o ano que estar por vir, que quando temos este sentimento em nós é porque precisamos repensar alguma coisa, precisamos fazer algo que nos fará pessoas melhores. 

      Por outro lado também desejo um Natal repleto de felicidade madura, com consciência de suas limitações e imperfeições, sem comparações depreciativas com os outros, e com o máximo proveito das oportunidades para servir e amar. 

            Feliz Natal e um excelente Ano Novo!

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Três grandes artistas cantam o Natal!

Lady Antebellum - A holly jolly Christmas

 


 Michael Bublé - Christmas

 


 Colbie Caillat - Christmas in the sand

 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Camafeu - Tudo pode acontecer

"Vem, não dê bobeira que essa vida é passageira
Não se arrependa do que você vai fazer
Amor gostoso toda noite, a noite inteira
E tudo pode acontecer"

O Espelho e o Pintor

Texto de Rute Rodrigues Sobrinho

     Certa vez o espelho, muito orgulhoso, disse ao pintor que era melhor do que ele, porque não tinha o trabalho de desenhar nada e podia retratar tudo o mais fielmente possível. E complementou:

     -Está vendo aquela mulher? É gorda, tem rugas, o vestido está gasto e os cabelos despenteados. Não a descrevi perfeitamente?

     - Descreveu, disse o pintor. Mas eu também posso fazer isso: eu vejo uma mulher de formas lindamente arredondas, com rugas que demonstram sua maturidade na vida e o quanto ela já sofreu para chegar até aqui. O vestido muito bem cortado, com um tom de vermelho já gasto de tantas lavagens, mostra que ela tem bom gosto, mas que atualmente não possui recursos financeiros para comprar um novo. Os gestos são nobres e o sorriso encantador. É isso que enxergo – falou o pintor.

     - E aquele outro rapaz, vestido com um terno perfeito, de traços finos, uma bela pasta. Deve ser um rico burguês - disse o espelho.
    
     O pintor retrucou novamente: - O terno é impecável, mas reparei que tem uma aliança no dedo esquerdo e seus olhos estão um pouco vermelhos como se ele tivesse chorado muito durante a noite. Traz consigo uma pasta com contas a pagar, talvez tenha sido demitido recentemente e preocupa-se com a mulher e, quem sabe, com filhos. 

     Percebo muitas pessoas orgulhosas por se dizerem sinceras demais, por falarem tudo o que pensam na cara. Mas quando alguém floreia a verdade não está mentindo, e sim colhendo da vida a melhor impressão possível. A forma cruel de vermos as coisas e pessoas e, mais ainda, de dizermos isso a elas, pode nos tornar verdadeiros carrascos. Por detrás desta “sinceridade” mora uma crueldade travestida de franqueza, como se fosse um álibi perfeito para o nosso subconsciente. A mente de quem emite a opinião está tranqüila... E o respeito à outra pessoa?

     Quando o espelho disse a verdade, à sua maneira, não estava mentindo, mas também não estava vendo com olhos de amorosidade. Chegou mesmo a ser impiedoso. Já o pintor, na sua visão mais poética, também não deixou de dizer a verdade na sua descrição, mas a diferença é enorme, porque considerou os sentimentos do outro, a sua história de vida e não apenas sua aparência.

     Sempre temos uma escolha: espelho ou pintor?

terça-feira, 27 de novembro de 2012

O mundo é um grande espelho. Ele reflete de volta o que você é. Se você é carinhoso, se você é bondoso, se você é prestativo, o mundo se mostrará carinhoso, bondoso e prestativo para você. O mundo é o que você é. (Thomas Dreier)



Mallu Magalhães - Velha e Louca

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Quase nada - Zeca Baleiro

A Grande Vereda

Texto de Rute Rodrigues Sobrinho

    Quando éramos crianças, havia uma chácara de uns conhecidos dos meus pais chamada Vereda Grande. Era um lugar enorme, com pés de mangas plantadas em todo o terreno. Todo ano, por esta época de novembro, quando as chuvas chegavam de verdade e as mangas já estavam maduras, íamos passar um dia inteiro por lá. 

    Reencontrávamos nossos amiguinhos, brincávamos, tomávamos café feito no bule e no coador de pano e, claro, ficávamos debaixo das árvores sorrindo e comendo manga no pé. 

      A variedade de mangas era enorme, com diferentes formas, sabores e cheiros: coquinho, haden, rosa, espada, coração de boi, palmer, bourbon, bourbon vermelha, coité, e muitas outras que até hoje nem sei o nome. E eu achava incrível o fato da mesma fruta possuir tantas nuances... A cada ano que passava eu sabia melhor minhas preferências, e quando chegava lá corria para o meu pé predileto. 

      Nunca vi mamãe ou papai nos recriminar por sujar as mãos, a blusa, o sapato, a boca, a cara toda. Voltávamos com o rosto todo amarelo e os dentes cheios de fiapos. Fora isso, havia a lama que se formava embaixo das árvores, misturada aos frutos que caíam, às folhas e à terra molhada. Até hoje posso sentir aquele cheiro de terra úmida, aquele clima chuvoso, um pouco frio e o nosso espírito todo ensolarado! 

      Como a chácara Vereda Grande era boa! E como a grande vereda da vida é boa também. Tantos frutos que, embora parecidos, tem seu sabor, seu cheiro, seu tamanho tão característicos e particulares. Nada é perdido, ninguém é demais nessa trilha, todo mundo é imprescindível nesse pomar. Saber aproveitar a grande vereda requer sabedoria e aprendizado constante. Deixemos os melindres, a neurose disfarçada de excesso de higiene, as críticas ácidas, os pudores paralisantes. Ou alguém acha que seremos eternos? Quando chegarmos a nossa verdadeira casa, em algum lugar do universo, tomaremos um banho quente, vestiremos roupas limpas e cheirosas e ficaremos com o melhor que tivermos feito na grande vereda da vida.

sábado, 10 de novembro de 2012

Victor Manuelle - Si Tú Me Besas

Pode-se beijar quem se gosta em qualquer dia da semana, mas hoje é sábado né? 
Beijos, beijos e mais beijos.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Lírio Branco


Texto de Rute Rodrigues Sobrinho

O lírio branco nasce em terreno pantanoso, na lama, mas é uma das mais belas flores. 

Quando nos deparamos com situações difíceis, que parecem impossíveis, a tendência é o fatalismo. Nunca mais vou sair dessa. Agora não me levanto mais.

Não há situação no mundo que o homem não esteja preparado para dominar. Mas só e somente se puder ver através do véu negro das aflições. Se puder entender que a vida é feita de alguns dissabores e desgostos. Mas nem por isso devemos generalizar as coisas, as pessoas.

Sempre há uma forma melhor de ver o mundo: SEMPRE. Essa escolha depende de nós. Há pessoas que reclamam de tudo, até mesmo de algo que deveria ser bom. Se for convidado para uma festa maravilhosa, reclama que não tem roupa. Se tiver dinheiro para comprar a roupa se sente gordo no modelo que escolheu. 

Percebi que ser otimista não é privilégio de ninguém. É treino. Se nas pequenas coisas do dia a dia pudermos enxergar um lado bom, assim será também quando a adversidade aparecer. Que tal treinarmos no final de semana? 

Choveu? Que delícia, estamos livres daquela seca e respirando um ar mais úmido. Fez Sol? Que maravilha, podemos ir ao clube, ficar na piscina. Não tenho programação para o sábado? Nossa, alugar um filminho vai ser ótimo! Sempre há uma opção para ser feliz e também para ser infeliz. Nós decidimos nosso destino, independentemente dos problemas periféricos, porque somos a nossa razão de viver.

Um excelente final de semana para todos!

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O ônibus da vida

Texto de Rute Rodrigues Sobrinho




A nossa vida é cheia de surpresas, de encontros e desencontros. Também num percurso de um ônibus ou metrô encontramos todo tipo de gente, cada qual absorvido em seus próprios questionamentos.  Nessa hora é a capacidade de ver outro como ser humano igual a nós que tornará nossa viagem mais tranqüila; ou não.

Alguns têm o privilégio de virem sentados, em razão do percurso do ônibus iniciar perto de suas casas. E às vezes se sentem orgulhosos por estarem naquele lugar. É a arrogância que fala. Outros sobem depois e se sentem desprivilegiados por terem que ir em pé, muitas vezes carregando objetos pesados nas mãos. É a humildade colocada à prova. Alguns se sensibilizam e oferecem o colo para ajudar a carregar os objetos até a próxima parada, ou mesmo cedem seus lugares. É a solidariedade em ação.

Ah, e o famoso lugar na janela? O lugar na janela não é mérito, é oportunidade da vida que devemos aproveitar. Isso não nos dá o direito de achar que somos melhores que ninguém. Quem não consegue sentar na janela não é inferior, apenas entrou em outra parada por motivo que desconhecemos e devemos respeitar. Quanta bobagem do ser humano! Como dizem: "o mundo dá muitas voltas" e o itinerário do ônibus também. Quem entrava por último passa a subir na primeira parada e aí o lugar na janela muda de "dono". É a prepotência querendo ganhar terreno.

Outros não conseguem encarar o diferente, aquele que está em condição inferior e fingem dormir, ler ou escutar música alta durante todo o percurso para não enxergar o outro e se manter na sua zona de conforto. É o egoísmo trancando as portas do coração. 

Olhar o outro de forma preconceituosa também não é incomum. Dizem que a primeira impressão é a que fica. Mas que impressão? Só da aparência? Concluir sobre alguém só por causa de sua vestimenta é de uma pretensão tamanha! O assaltante pode estar muito bem vestido, por exemplo; o estudante sério pode estar de jeans rasgado e sujo; a descabelada pode ter saído atrasada naquele dia. Um bom espírito pode estar em qualquer corpo!

Durante o caminho muitos entram e saem do veículo, mas apenas alguns fazem a diferença para nós, saem do anonimato e passam a integrar o círculo mais íntimo de nossa intimidade. Não sabemos quem encontraremos e nem em que parada nos deixarão. Muitos passam em nossas vidas, mas só alguns realmente nos conhecem e modificam-nos em alguma coisa. São as surpresas da vida. 

No mais, estamos todos no mesmo ônibus, ninguém é melhor que ninguém. Hoje se vai sentado, amanhã em pé. Não há parada melhor ou pior para subir ou descer. Cada qual tem o ônibus e a parada que necessita para viver.


sábado, 15 de setembro de 2012

Happy Birthday!

Galera, estamos fazendo 1 ano de blog. Obrigada e muitos beijos!!!!!!!!!! :) :) :) :)




Depende...

Texto de Rute Rodrigues Sobrinho


Gosto do sim quando aceito um novo amor.

Gosto do não para não me sujeitar a qualquer coisa.

Gosto do claro quando vejo o caminho certo. 

Gosto do escuro quando rola um amasso. 

Gosto do folgado quando minha timidez impede. 

Gosto do apertado quando o abraço me tira o fôlego. 

Gosto do largo quando deixo pra trás o que não serve.

Gosto do estreito quando quero ficar sozinha. 

Gosto do novo quando posso descobrir o mundo.

Gosto do velho quando quero resgatar o passado.

Gosto da pressa para ver logo meu amor. 

Gosto da calma para beijar a noite toda.

Gosto do amor porque ele move tudo.

Gosto do ódio porque também é amor, só que doente.

Gosto do amigo para uma conversa sincera.

Gosto do inimigo para ficar sempre atento.

Gosto da pintura realista para saber como é.

Gosto do foto shop para saber como poderia ser. 

Gosto do nada quando tudo dá errado.

Gosto do tudo quando nada atrapalha.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

A desobriga

Texto de Rute Rodrigues Sobrinho


O dia mal raiou e Felipe, seus irmãos e seus primos já estavam de pé comendo mandioca cozida com café e leite quente. Tinham pressa para cair no mato. Precisavam encontrar madeiras de boa qualidade para prepararem o maior número possível de jiraus. 

É que naquela semana aconteceriam as festividades da "desobriga". Devido à grande quantidade de municípios e cidades no interior nordestino, a igreja católica não conseguia ter um padre permanente em todas as paróquias. Então, de seis em seis meses, vinha uma enorme caravana com padres, trabalhadores da igreja e comerciantes para as festividades daquele vilarejo. O sacerdote percorria as terras sob sua responsabilidade, desobrigando os fiéis de seus compromissos canônicos, realizando batizados, casamentos e celebrando missas. 

Os meninos não podiam perder tempo, saíram apressadamente com suas foices e machados à procura de madeira apropriada para o seu intento. Nessa época era uma das poucas oportunidades que eles ganhavam seu próprio dinheiro. Confeccionavam vários jiraus para vender aos comerciantes que queriam expor suas mercadorias durante as festas. 

No final do dia, eles voltaram para casa com a burra carregada, passariam o dia seguinte confeccionando os mezaninos. Felipe trabalhou muito feliz, pensando na festa, no dinheiro que ia ganhar e no sapato novo que o pai Carlos havia prometido comprar.

No vilarejo várias famílias acolhiam os visitantes. Carlos costumava hospedar alguns comerciantes. A casa da frente, que era de Dona Lucinda, abrigava o padre e os beatos. 

Ao cair da tarde os meninos haviam preparado dezesseis estrados para venda. Estavam exaustos. Mas Felipe esqueceu tudo isso quando ouviu o burburinho na cidade com a chegada dos missionários. Todo mundo saiu às portas de suas casas e a poeira subiu. Era muita gente pisando naquele chão de terra solta...

Já era tarde quando os cumprimentos terminaram. Agora todos queriam um lugar para repousar. Na casa de Felipe hospedaram-se dois comerciantes, um que vendia redes e o outro que vendia sapatos. 

Felipe mal podia esperar a hora de abrir as sacolas, mas tinha que aguardar José tomar um banho de balde, comer um feijão com arroz e ter disposição para conversar. Antes que ele pudesse se acomodar para dormir, o pai da criança pediu para ver os sapatos. Felipe devia ter entre oito e nove anos de idade e não se agüentava de tanta ansiedade.

Dentre os vários pares que o mascate mostrou, Felipe se encantou por um sapato branco com pespontos marrons. O calçado ficou um pouco apertado em seu pé, mas ele adorou aquele modelo e disse para o pai que estava lindo e confortável. O pai desconfiou que não tivesse ficado tão bom, mas Felipe queria tanto e estava tão contente que ele comprou o par. 

No outro dia muito cedo o vilarejo já estava movimentado. O sino havia tocado e Felipe correu para não perder a hora da missa que já estava começando. No caminho para a humilde capela começou sentir o pezinho doer e a apertar, chegou a pensar que seu pé tinha crescido durante a noite...

Com todo esforço conseguiu chegar. Ficou triste ao lembrar que a festa que ele tanto esperou ainda duraria o dia inteiro. Tinha uns trocados para comprar bobagens, mas não tinha pés para chegar até as barracas. O menino ficou amuado quase todo o dia e o pai pensou que ele estivesse doente. Até o geladinho que ele tanto gostava de tomar deixou para lá, afinal Seu Doda ficou muito distante desta vez. Naquela época não tinha energia elétrica no vilarejo e o geladinho era uma sensação. Tratava-se de um refresco feito com suco em pó, destes coloridos artificialmente, e colocados em jarros de barro no meio da sombra. Depois se enrolava panos molhados em volta e deixava o vento soprar e gelar a bebida. Mas nem isso Felipe tomou neste dia.

À noite, depois do pai tanto perguntar o que aconteceu, o filho, com vergonha por causa do sapato, só mostrou os pezinhos cheios de calos já com sangue e os olhos marejados de água. Pensou que levaria uma bronca, a mãe até fez menção de fazê-lo, mas o pai amoroso o tomou nos braços, fez um escalda pés e botou Felipe pra dormir. 

No outro dia, Carlos pediu para a mulher dar os sapatos para uma criança menor e que pudesse utilizá-los com tranqüilidade. Felipe nunca esqueceu um gesto tão simples e tão bonito. Reconhecia que por teimosia sua não tinha feito uma boa escolha. Por sua vez, o pai sabia que o sapato estava apertado, mas se dissesse isso a Felipe ele nunca entenderia. Achou melhor ele aprender desde cedo que uma escolha impensada ou mal feita pode trazer sofrimento, mas que isso não torna ninguém pior ou menos amado.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Solidão

Texto de Rute Rodrigues Sobrinho


Solidão é um poderoso vírus que está latente em todo ser humano. Alguns se dizem imunes a ele ou possuem estrutura emocional suficiente para sobreviver com pequenas sequelas. Quem não tem a mesma sorte, geralmente os mais sensíveis, ou se entregam à clausura interna, ou lutam a vida inteira.

O cantor Alceu Valença diz numa música que "solidão é fera, solidão devora". Sei não, acho que solidão não é fera que devora a presa, é um verme que mastiga a vítima sem nunca matá-la. Ela é desconfortável, é como estar molhada num dia de rigoroso inverno. Solidão é uma eterna segunda-feira, é como comemorar a vitória numa final de copa do mundo num estádio vazio. 

Solidão não se confunde com depressão. Todo deprimido sente solidão, mas nem sempre quem sente solidão é deprimido. Solidão é aquele vazio na alma que exige cuidado constante. É olhando para ele que nos questionamos e não aceitamos respostas prontas. Há pessoas, no entanto, que fazem disso um buraco negro, sem fim e sem respostas. 

Este sentimento também não é desilusão, como na música de Marisa Monte: "Desilusão, desilusão. Danço eu dança você. Na dança da solidão". Solidão é independente de uma decepção amorosa, é algo genuíno que nasce na alma para procurar uma resposta para a vida. 

Solidão não é uma pedra no sapato, é um escorpião dentro das calças. É um vazio que não se preenche, é uma sede que nunca se mata. É como tentar atravessar o mar com uma âncora nos pés, é andar com o freio de mão puxado.

Li numa placa outro dia que "Só há verdadeira solidão onde falta Deus". Mas e se Deus houver criado a solidão exatamente para que os seres humanos buscassem o divino?

Creio que esta sensação de vazio foi um dos mecanismos usados pela providência divina para alertar que existe mais do que imaginamos. Ouso dizer que uma das causas da depressão é seguir adiante achando que se pode simplesmente voar por cima dessas indagações da alma e que vai ficar tudo bem. A ponte para passar por cima delas é feita de compreensão para consigo mesmo, auto-estima e autoconhecimento.

Às vezes observo alguns encherem o peito e dizerem que solidão não existe porque vivem rodeados de amigos e familiares. Isso é porque não fecharam a porta do seu eu e ficaram no escuro consigo mesmos. Quem não tempo ou não quer refletir preencherá sua vida com as mais diversas coisas e ocupações. 

Pois bem, sou feliz e às vezes sinto solidão, e não acho que estes dois sentimentos sejam contraditórios ou incompatíveis. Quando meu subconsciente procura respostas de perguntas que ainda não chegaram ao consciente é um desconforto só, um aperto no peito, e alma quer ficar sozinha para refletir. Ficar um tempo em silêncio no quarto escuro do meu eu ajuda a clarear as idéias e volto a abrir a porta para um dia ensolarado. É assim que vou desatando os nós e seguindo nesta estrada que é construída dia a dia. 

domingo, 12 de agosto de 2012

Caridade

Texto de Rute Rodrigues Sobrinho


     Nunca havia entendido porque os mais velhos gostavam de contar as mesmas histórias. Muitas vezes ouvi-as contrariada e pensava porque estavam relatando-as de novo se eu já havia escutado tantas vezes.  Observei a paciência do meu pai com meu avô. Ele ouvia e ouve suas histórias sempre. Em todas elas ele se surpreende e ri como na primeira vez. 

     Meu avô fica quietinho quando chega a nossa casa, mas ao avistar meu pai seus olhinhos brilham. É que alguém vai ouvi-lo por instantes, vai dar-lhe atenção. E é meu pai quem puxa o assunto: - Seu Manoel conta aquela história da sua infância, quando o senhor teve que correr por um beco escuro! 

     Vovô muda a fisionomia, parece que fica mais jovem e conta suas peripécias, coisas que já sabemos, mas parece que aquilo é uma fonte de rejuvenescimento. Falar da sua vida, mostrar que um dia também foi tão ágil quanto nós o faz sentir integrado. É a ponte entre sua geração e a nossa. Afinal de contas muitos dos idosos vivem das lembranças do passado, até por não terem a mesma força física dos jovens. 

     A partir desse papo inicial, vovô fica mais solto, sorridente, participante ativo da festa, mesmo com seu jeito mais tranqüilo. Pára de reclamar das dores, pára de dizer que a velhice é uma droga, sente-se jovem por instantes.

     Hoje entendo pessoas que vão visitar asilos e ficam por lá a tarde toda: uns conversam com os idosos, as moças maqueiam ou penteiam as senhoras. Certamente é uma doação de tempo e amor que não custa nada, mas traz energia e vigor para continuar a vida.

     Pode parecer que não, mas doar atenção é mais barato e mais precioso do que doar bens ou dinheiro. Claro que uma coisa não exclui a outra. 

    A caridade moral pode ser praticada por todos nós a qualquer momento. Ouvir simplesmente, sem tentar corrigir, sem dar lição de moral, é de grande valia. Deixem que seus pais e avós falem errado, não devemos mais corrigi-los nessa idade, eles só querem se comunicar e não ter aula de português. Deixem que misturem duas ou três histórias que já conhecemos, deixem que digam como o mundo antigamente era melhor. Façamos a caridade de permitir a eles continuar inseridos na família e se sentindo úteis. Se Deus quiser, também seremos velhinhos e ficaremos felizes aos encontrarmos jovens que nos façam esquecer as limitações da idade.

     E quando conseguirmos aplicar esses conceitos no nosso lar podemos levar ao trabalho, à faculdade, onde quisermos. Pensem, por exemplo, que há um grande mérito em ouvir um amigo que sofre, em fazer-se de surdo diante das ironias, em fazer-se de cego para não enxergar coisas desagradáveis, em conformar-se com os defeitos dos colegas sem ter que apontá-los diariamente. 

     Um bem que fazemos ao outro é um bem feito a todos nós.

Emeli Sandé - Next to me

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Duas de mim

Texto de Rute Rodrigues Sobrinho





       Uma de mim é doce, tranqüila, quer a paz, é altamente tolerante, quer casar na igreja e ter filhos. A outra é ousada, gosta da guerra que trava consigo mesma, está bem sozinha e tem medo de uma companhia sufocante e repressora.
      O problema é que as duas convivem diariamente, uma não dá folga à outra para satisfazer suas vontades. Daí o conflito é enorme. Falo uma coisa num dia e posso falar o inverso daqui a instantes. O meu eu não é singular, é plural, é complexo. Tenho amigos de verdade e uma família maravilhosa, mas eles certamente não questionam minhas loucuras, simplesmente me aceitam ou dizem: - Hoje ela tá daquele jeito! E ignoram o resto.
       Na verdade fazem isto porque conhecem o meu melhor que é comum a ambas de mim. Sou fiel aos meus amigos, carinhosa, tento ser política para não magoar as pessoas, importo-me com o que elas sentem, não gosto de injustiça, sou extremamente amorosa, gosto de abraçar, de beijar. Não falo só com a boca, falo com o corpo todo.
      Não sei por que Deus me fez assim tão intensa. Fico muito alegre, muito ansiosa, muito esperançosa, muito triste, muito decepcionada, muito apaixonada. Sempre tem o muito em tudo que sinto ou percebo. Todas as emoções chegam a mim com lentes de aumento.
     Às vezes queria ser um pouco mais linear, mas só de pensar nisso já fico entediada. Minha vida é realmente cheia de emoções. Como diz um trecho da música do Roberto Carlos: “se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi”.  
        Deus me livre de uma vida nota cinco...