Flor pertencia a uma família pobre. Mas isso nunca foi problema para ela. Sorria sempre, brincava e fazia imitações como se aquilo não a tivesse atingindo.
Um dia, porém, aquele domínio sobre a situação desmoronou pela primeira vez de tantas outras que se seguiram na vida adulta.
A menina costumava ganhar roupas usadas que enviavam para sua casa. No amontoado de roupas velhas, achou um vestido amarelo lindo, parecia vestido de princesa, cheio de babados na saia e rendas no decote e mangas. Seu pai, que entendia de costura, fez os reparos necessários e a roupa ficou perfeita. Flor deixou para usá-lo numa ocasião especial e esta data apareceu.
Chegando a festa todos a elogiaram, parecia uma princesa de desenho animado. Havia arrumado os cabelos presos para trás, colocado perfume, vestia uma meia-calça de bolinhas brancas e o maravilhoso vestido amarelo.
Depois de alguns minutos nem se lembrava que estava com aquele vestido tão bonito, só tinha certeza de que era criança e queria brincar.
Encontrou sua amiguinha Maria e esta logo falou:
- Esse vestido era meu, sabia? Minha mãe que mandou para sua casa.
- Mentira, meu pai comprou este vestido pra mim – disse Flor na defensiva.
A coleguinha continuou a retrucar em alta voz:
- Sua mentirosa! Você não tem dinheiro pra comprar um vestido desses – falou Maria.
Para não perder a pose e sem saber como se comportar, Flor insistiu até o fim que seu pai é quem havia comprado o vestido.
Daquele momento em diante o vestido que era leve e esvoaçante passou a ser uma armadura, de tão pesado que se tornou. As outras amiguinhas não brincaram mais com ela e a apontavam como a mentirosa que não tinha dinheiro pra comprar um vestido.
Flor foi para casa triste, quase febril. Nunca mais vestiu aquela roupa. Pediu que a mãe o desse para outra criança. Quem sabe a próxima dona teria a sorte de não conhecer Maria e poder desfrutar melhor da roupa...
Flor passou alguns dias amuada e triste com a atitude da amiga. Esperava contar com a cumplicidade dela. Flor achava que a amiga não deveria ter falado nada na frente das outras meninas, mesmo sabendo que o vestido havia sido seu. E isso ficou martelando naquela cabeça miúda por muito tempo até que ela se esqueceu do ocorrido.
Hoje, ao olhar para trás, e tendo outra experiência de vida, Flor sabe que era impossível exigir de uma criança de oito anos uma atitude assim tão generosa. Os adultos, muitas vezes, fazem coisas muito mais reprováveis do que esta. E eles, os adultos, são muito mais astutos, porque sabem que podem humilhar de várias formas, até mesmo quando escondem atrás de atitudes generosas a mesma mesquinhez da pequena Maria...
FIM!

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